A velocidade que os filhos imprimem no nosso autoconhecimento

Hoje ao chegarmos da escola, cumpri a rotina que se repete religiosamente todos os dias: brincar no pátio, alimentar animais, janta, banho, tema.

Só que hoje, algo novo pipocou nessa rotina tão lindamente ensaiada nos últimos 10 meses: uma prova de matemática, cuja nota saltou aos meus olhos: 7,5. Hã? Como é que é?? Será que eu enxerguei direito? Cocei os olhos, como naquelas cenas que você vê em filme… 7,5… 7,5? 7,5! Sim. Com pergunta e ponto de exclamação?!

E rapidamente eu senti meu galho em raiva balançar com um intensidade absurda. A vontade do ego (a re-ação instintiva) era perguntar em tom de voz alto e impositivo “O que significa essa nota?”, mas felizmente respirei… e me permitir entrar num espaço de questionar aquela reação.

E aí começa o processo de gestão emocional (que nada tem a ver com controle emocional). Se eu tivesse con-tro-la-do a minha raiva, provavelmente eu iria apertar os dentes, contrair os ombros e ficar remoendo o 7,5 a noite toda ou até dias.

A gestão emocional tem muito mais a ver com empatia, compreensão do espaço do outro, aceitação da realidade. Tem a ver com a permissão de observar como esta emoção atua em você e se faz sentido a re-ação instintiva decorrente dela.

Esse espaço de 10 segundos que me permiti, bastaram para eu estabelecer uma comunicação amável e fortalecer a relação de confiança com a minha filha. Como se eu não tivesse visto ainda a prova, perguntei com voz mansa e suave, mas com uma curiosidade no olhar que demonstrava boas expectativas:

“Filha, como foi a prova de matemática?”. E ela, com voz lenta e baixinha me respondeu: “Tirei 7,5”.

Eu com um sorriso divertido, entrando na energia da Gula (que provavelmente foi a emoção que a sequestrou na hora da prova) e expressando surpresa: “Ué?”, ao que ela me respondeu: “A profe disse que foi falta de atenção”.

Eu também sabia que tinha sido isso… mas preferi expressar… “OK. E o que você aprendeu com isso?”. E a
resposta dela foi surpreendente!! SUR-PRE-EN-DEN-TE (com maiúsculas e ponto de exclamação):

“Mãe, eu aprendi várias coisas:

1. Que eu devo me concentrar mais

2. Que eu não preciso me preocupar com a nota dos outros, porque somos pessoas diferentes com
habilidades diferentes

3. Que a nota importa menos do que o que eu aprendi de matemática e

4. Amanhã eu vou refazer os exercícios que eu errei para aprender ainda mais”

Meu queixo caiu. Pra falar a verdade, tá caído até agora. Ela aprendeu muito mais do que se tivesse tirado 10 na prova!!!

Meu coração se encheu de alegria, de orgulho, de satisfação. Fui tomada pela sensação de profunda gratidão por ter-me permitido RESPIRAR e acessar conscientemente todo o conhecimento que eu tenho sobre gestão emocional e aplicá-la naquela hora.

No final da manhã de hoje, quando cheguei em casa ela estava super feliz, com todos os exercícios resolvidos (e com resultados precisamente corretos!). Bingo!!

Ela acessou o estágio propício para o aprendizado: “Eu posso fazer coisas melhores”. E eu sei que eu posso exercitar a persistência na minha “gulosa”.

A única coisa que se faz necessária é a CONGRUÊNCIA entre o que eu ensino e o que eu pratico. Porque ouvir algo, dizer-se adepto a novas filosofias de ensino e de vida e sair repetindo igual papagaio do pirata é fácil.

Agora VIVER o que se fala, FAZER novas escolhas e AGIR fora do piloto automático é onde está o desafio e a beleza de uma vida plena e consciente. E essa consciência está diretamente relacionada à desidentificação da emoção que nos invade.

É o que Eckhart Tolle chama de “tornar-se testemunha”, apenas observando como aquela emoção se manifesta em você.

E, acredite, os filhos aceleram enormemente esse processo!

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